O que é um baluarte no Carnaval e por que essas pessoas são “patrimônio vivo” da folia

No Carnaval, algumas figuras ocupam um lugar que vai muito além de desfilar, cantar ou tocar. São pessoas reconhecidas como memória viva de uma escola, de uma comunidade e de um modo de fazer cultura popular. No Brasil, elas costumam ser chamadas de baluartes — um termo que, no universo do samba, virou sinônimo de resistência, tradição, legado e respeito.

Mas afinal: o que é um baluarte no Carnaval, como alguém recebe esse título e por que ele é tão importante para a identidade das escolas de samba?

O significado de “baluarte” e como a palavra virou símbolo do samba

A palavra baluarte tem origem no vocabulário de defesa (um “ponto forte”, um “bastião”) e, no uso comum, passou a significar pilar, referência, alguém que sustenta e protege uma causa. No Carnaval, o termo ganhou um sentido afetivo e cultural: baluarte é a pessoa que ajudou a construir a história do samba — e continua sendo referência para as novas gerações.

Em outras palavras, se o Carnaval fosse uma grande casa, o baluarte seria a coluna que mantém a estrutura de pé: alguém que guarda a memória, orienta caminhos e inspira respeito.

Baluarte no Carnaval: definição prática (do jeito que a avenida entende)

No contexto das escolas de samba e do Carnaval de rua, um baluarte é, geralmente, uma pessoa que:

  • tem trajetória longa e reconhecida no samba (muitas vezes, décadas);
  • contribuiu diretamente para a fundação, crescimento ou consolidação de uma escola, bloco ou comunidade;
  • carrega conhecimento de bastidores: enredos históricos, mestres antigos, transformações da agremiação, tradições do território;
  • é vista como referência moral e cultural — alguém que “representa a escola” mesmo fora da avenida;
  • ajuda a manter viva a identidade do samba: respeito, disciplina comunitária, tradição, linguagem, memória e valores.

Nem sempre o baluarte é uma celebridade. Muitas vezes, é o nome conhecido dentro da comunidade, o “mais velho” do samba, a pessoa que todos consultam quando surge a pergunta: “Como isso sempre foi feito aqui?”

O que um baluarte faz (mesmo quando não está no microfone)

O baluarte não é apenas uma honra no currículo. Em muitas agremiações, ele exerce uma função real — mesmo que informal:

1) Guardião da memória

É quem lembra de onde a escola veio, quem foram os fundadores, quais enredos marcaram época, quais mudanças ajudaram ou prejudicaram.

2) Transmissor de tradição

Ensina às novas gerações o que não está escrito em manual: ética do samba, história da comunidade, respeito à escola, relação com o bairro.

3) Conselheiro e mediador

Em momentos de conflito, o baluarte é voz de equilíbrio. Ele costuma ser chamado para apaziguar, orientar e lembrar o que é maior: a escola e sua história.

4) Símbolo de pertencimento

O baluarte representa a ideia de que o Carnaval não é só evento: é continuidade cultural. A presença dele diz: “Essa escola tem raiz.”

Como alguém se torna baluarte? Existe “regras”?

Não há uma regra única nacional. O que existe é um conjunto de critérios simbólicos que se repetem em diferentes lugares:

  • tempo de dedicação ao samba e à escola;
  • serviços prestados (em diferentes funções: harmonia, bateria, ala, direção, composição, organização comunitária etc.);
  • postura respeitada — dentro e fora da agremiação;
  • reconhecimento coletivo (o título nasce do respeito da comunidade).

Em muitas escolas, o baluarte é reconhecido por homenagens, cerimônias internas, menções oficiais, participação em alas especiais e, às vezes, com cargos honorários em conselhos culturais.

Baluarte, velha guarda e “baluartes da escola”: qual a diferença?

Esses termos podem se misturar, mas não são exatamente iguais:

  • Velha guarda costuma se referir a um grupo (ala ou conjunto musical) formado por integrantes antigos e respeitados.
  • Baluarte é mais um título individual, ligado a pilar histórico e referência.
  • Uma pessoa pode ser da velha guarda e também ser baluarte, mas nem todo integrante antigo automaticamente recebe esse reconhecimento.

Pense assim: a velha guarda é a “memória em conjunto”; o baluarte é a “memória personificada”.

Por que os baluartes são tão importantes para o Carnaval hoje?

Em tempos de mudanças rápidas — Carnaval cada vez mais profissionalizado, pressão por resultado, redes sociais, novas linguagens — os baluartes funcionam como um fio de continuidade. Eles ajudam a escola a evoluir sem perder a alma.

Eles garantem:

  • identidade (o que torna uma escola única);
  • respeito à história (fundadores, territórios e tradições);
  • formação de novos sambistas (ensinando valores e disciplina cultural);
  • memória coletiva (um acervo vivo que livro nenhum substitui).

E há um detalhe essencial: baluarte não é “passado”. É presente ativo. Quando uma escola valoriza seus baluartes, ela está dizendo que o Carnaval é cultura, não só espetáculo.

Onde você vê um baluarte na prática (na avenida e fora dela)

Você pode identificar um baluarte em momentos como:

  • homenagens em enredos e sambas;
  • presenças em eventos culturais da escola;
  • destaque em alas tradicionais;
  • reconhecimento público em aniversários e celebrações;
  • respeito natural: quando alguém chega e a comunidade diz, sem precisar explicar, “Esse é baluarte.”

O baluarte como “patrimônio vivo” do Carnaval

No fim das contas, chamar alguém de baluarte no Carnaval é reconhecer que aquela pessoa é um ponto de sustentação da cultura do samba. É quem guarda histórias, protege tradições, orienta caminhos e mantém viva a essência comunitária da festa.

O Carnaval muda — e ainda bem. Mas, sem baluartes, ele corre o risco de perder o que o torna único: a memória que canta, dança e resiste junto com o povo.

Reginaldo Henrique

https://www.reginaldohb.com.br

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