Ònà Irin: Caminho de Ferro no Sesc Belenzinho transforma ancestralidade, arte e espiritualidade em uma das exposições mais potentes de São Paulo

A exposição “Ònà Irin: Caminho de Ferro”, da artista baiana Nádia Taquary, é um dos destaques da programação cultural em São Paulo e segue em cartaz no Sesc Belenzinho com entrada gratuita. A mostra propõe uma travessia sensorial e simbólica por temas como ancestralidade afro-brasileira, espiritualidade, memória, feminino sagrado e os caminhos abertos por entidades e forças presentes na cosmologia iorubá.

No percurso expositivo, o público é convidado a atravessar um universo construído a partir das referências de Ogum, Exu, Ìyàmìs, Orikis e Yabás, em uma experiência que vai além da contemplação estética. Em vez de apenas observar as obras, a visita se transforma em encontro com símbolos, materiais e narrativas que conectam o visível ao invisível, a história à contemporaneidade e a arte à dimensão ritual.

A temporada da mostra no Sesc Belenzinho foi prorrogada até 26 de abril de 2026, ampliando a oportunidade para que mais pessoas conheçam um trabalho que já passou pelo Museu de Arte do Rio (MAR) e pelo Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) antes de chegar a São Paulo.

Uma exposição que transforma o espaço em travessia

Mais do que reunir obras de diferentes fases da carreira de Nádia Taquary, “Ònà Irin: Caminho de Ferro” organiza um percurso expositivo que usa o fluxo ferroviário como metáfora dos caminhos da vida, das encruzilhadas, do movimento e das passagens entre mundos. A ideia de “caminho de ferro” aparece, assim, como imagem de deslocamento, comunicação, tecnologia espiritual e abertura de destinos.

A mostra reúne 22 obras, entre esculturas, objetos-esculturas, instalações e videoinstalação, articulando diferentes momentos da produção da artista. No Sesc Belenzinho, esse conjunto ganha uma nova ambientação, reforçando o caráter imersivo do projeto e intensificando a experiência sensorial do visitante.

Em várias peças, aparecem materiais recorrentes na pesquisa de Taquary, como búzios, miçangas, metais, palhas, fibras, plumas e elementos simbólicos ligados às tradições afro-brasileiras. O resultado é uma linguagem visual de forte impacto, em que corpos, cabeças, figuras femininas e formas híbridas evocam presenças ancestrais, proteção, cura, memória e poder criador.

Quem é Nádia Taquary

Nascida em Salvador, em 1967, e atuando a partir da Bahia, Nádia Taquary é hoje um dos nomes mais relevantes da arte contemporânea afro-brasileira. Sua pesquisa investiga o sagrado afro-brasileiro, o protagonismo feminino negro e os legados ancestrais das culturas de matriz africana, questionando leituras eurocêntricas e patriarcais sobre a produção de conhecimento e sobre a história da arte.

A trajetória da artista começou com investigações sobre a joalheria afro-brasileira, especialmente as pencas de balangandãs, adornos e conjuntos de pingentes associados à experiência histórica de mulheres negras escravizadas e libertas na Bahia. Com o tempo, essa pesquisa se expandiu para esculturas e instalações de maior escala, mantendo como eixo o diálogo entre ancestralidade, religiosidade, identidade e força feminina.

A relevância de Nádia Taquary também aparece em sua circulação institucional. Ela participou da 24ª Bienal de Sydney e integra a 36ª Bienal de São Paulo, além de ter obras em coleções como as da Pinacoteca de São Paulo, do Museu de Arte Moderna da Bahia, do Pérez Art Museum Miami e do Museum of Arts and Design, em Nova York.

O feminino ancestral no centro da mostra

Um dos pontos mais fortes de “Ònà Irin: Caminho de Ferro” é a centralidade do feminino ancestral. A curadoria de Amanda Bonan, Ayrson Heráclito e Marcelo Campos enfatiza como a obra de Nádia Taquary reposiciona o feminino não como ornamento ou coadjuvante, mas como energia estruturante, princípio de criação e força capaz de abrir caminhos.

Na exposição, esse feminino aparece ligado às Yabás, às Ìyàmìs e às sociedades femininas africanas, em uma construção poética que entrelaça mito, espiritualidade e resistência histórica. Em vez de apresentar uma visão folclórica ou superficial dessas referências, a mostra transforma cosmologias afro-brasileiras em linguagem contemporânea, com densidade simbólica e forte presença visual.

Por que visitar a exposição no Sesc Belenzinho

Para quem procura uma programação cultural gratuita em São Paulo com profundidade estética e potência política, “Ònà Irin: Caminho de Ferro” se destaca por oferecer uma experiência completa. A exposição dialoga com debates urgentes sobre memória afro-diaspórica, presença feminina negra, espiritualidade, arte contemporânea e reparação simbólica, sem perder o poder de encantamento visual.

Também chama atenção o fato de a mostra estar instalada em uma unidade de grande circulação como o Sesc Belenzinho, o que amplia o contato de públicos diversos com uma produção artística sofisticada e, ao mesmo tempo, profundamente conectada à história e à experiência afro-brasileira.

Serviço da exposição “Ònà Irin: Caminho de Ferro”

📍 Local: Sesc Belenzinho — Rua Padre Adelino, 1000, Belém/Belenzinho, São Paulo (SP)
📅 Período: em cartaz até 26 de abril de 2026
🕒 Horários: terça a sábado, das 10h às 21h; domingos e feriados, das 10h às 18h
🎟️ Entrada: gratuita
👨‍👩‍👧 Classificação: livre
Acessibilidade: a programação da mostra informa recursos de acessibilidade; a unidade também dispõe de estrutura acessível.
☎️ Informações: (11) 2076-9700

Fechamento

Em cartaz no Sesc Belenzinho, “Ònà Irin: Caminho de Ferro” confirma a força de Nádia Taquary no cenário da arte contemporânea brasileira e oferece ao público paulistano uma exposição que une beleza, densidade simbólica e reflexão histórica. Para quem deseja visitar uma mostra gratuita em São Paulo que vá além do convencional, esta é uma parada essencial no calendário cultural da cidade.

Reginaldo Henrique

https://www.reginaldohb.com.br

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